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domingo, 5 de março de 2017

Os bobos

Triste é saber que uma estupidez nunca anda sozinha, busca a companhia de outras iguais para que se sinta plena e resolvida.
Que a febre amarela continua por aí, espalhada pelo Brasil, não há dúvidas. Mais ainda: os macacos são também vítimas do mesmo vírus e pagam duas vezes por isto. Se não morrem pela doença, eis que a mão humana, sempre disposta à violência, trata de consumar a perversidade.
No interior de São Paulo, diz o noticiário, 25 macacos foram assassinados no “combate” à febre amarela. A primeira estupidez. Suas companheiras: são mortos, os pequenos primatas, a pauladas, a pedradas, enforcados, torturados e carbonizados, como só o homem, o maior de todos os predadores, sabe fazer. De caso pensado, adredemente planejado e executado.
Não, eu não me surpreendo. Mas também não me conformo.
A nossa relação com a Natureza é sempre esta: utilitária, dilapidando os recursos, todos os recursos, inclusive os animais, como se eles existissem apenas para nos servir – uma mentira que nasceu com o Homem.
A impiedade é a marca desta relação, de mão única, na direção da nossa soberba. Até mesmo aos animais que domesticamos, por necessidade, nós não dedicamos um tratamento minimamente humanitário.
No seu Sapiens, Yuval Noah Harari relaciona alguns dos nossos preferidos para consumo: galinha, gado e ovelhas.  Hoje, eles se reproduzem como não seria possível se continuassem como animais selvagens, correndo riscos, fugindo de predadores. Não precisam mais fazer esforço para viver, mas nada podem fazer para evitar sua própria morte.
Obra e (des) graça da Revolução Agrícola.
“Um raro rinoceronte selvagem à beira da extinção é provavelmente mais feliz do que um boi que passa sua breve vida dentro de uma jaula minúscula, alimentado para produzir carnes suculentas”, acentua Harari, para arrematar:
– O sucesso numérico da espécie bovina é pouco consolo para o sofrimento que o indivíduo padece.
Outro exemplo para fechar o tema: a expectativa de vida de uma galinha selvagem, que precisa ganhar o pão que consome, é de 7 a 12 anos; numa granja, trancafiada e domesticada, sem fazer qualquer esforço para comer, se tiver sorte, pode sobreviver alguns meses – numa vidinha sem a menor graça, cheia de penas.
Está claro: eu não sou antropocêntrico. Não considero que a nossa espécie seja uma divindade pretensiosa que comanda o planeta com mão de ferro e coração de chumbo. E não consigo esconder a minha simpatia pelos nossos primos, aqueles com quem dividimos um ancestral sumido há seis milhões de anos. Chimpanzé, bonobos e gorilas também são seres humanos, diria – e prenhe de razão – um determinado personagem da história recente do Brasil.
O biólogo evolucionista Frans de Waal é autor de dois clássicos sobre o tema: Eu, primata e A era da empatia. Ele descreve detalhadamente a semelhança de comportamento, inclusive social e político, entre os humanos e os chimpanzés, com quem dividimos 98% dos nossos DNAs. (Para quem gosta do tema, recomenda-se, também, O terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond.)
Sobre estes, Waal cita, em resumo, Jane Goodall, primatóloga que compartilhou 40 anos da sua vida com os chimpanzés, a quem amou mais do que tudo, compreendendo-os como Freud a nós, os primatas sem pelos:
– Se os chimpanzés tivessem revólveres e facas e soubessem manejá-los, eles os usariam como os humanos.
Mas, e esses tais de bonobos?
São os meus primos mais queridos e invejados.
Já foram chamados de pequenos chimpanzés, até que se descobrisse que eles eram outra espécie, safadinha, que resolve seus conflitos de uma forma tão surpreendente quanto inteligente. Diria mais: prazerosa, como pregam os poetas, ainda que não consigam vivenciá-las.
Como?
Fazendo amor, transando, simples assim, na relva, na selva, onde der. Sem pudor.
Entre eles, as fêmeas são as maiorais, provedoras daquilo que a vida pode oferecer de melhor.
Uma lição, instiga Waal, que nos ensinam os bonobos, e que nós, os bobos, teimamos em não aprender.
Fonte: tnh1.com
 
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