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quarta-feira, 1 de março de 2017

A história da cobra que queria mamar

Nem com a ajuda do amigo Toquinho, que Chico havia convidado para passar “uns tempos” com ele na Itália, o show decolou. O músico ainda não era o “Toquinho do Vinícius” (sem trocadilho, gente), mas tentava animar o público com seu magnífico violão em sambas e que tais. Nada. Só quem já sentiu no palco a indiferença do público sabe o quanto ela é cruel – e não há remédio para suavizar o sofrimento. De repente, talvez pelo vinho, talvez pelo espírito moleque do Chico, eles soltaram um “mamãe eu quero/mamãe eu quero”, e levantaram a plateia. Até de manhã, italianos sedentos da boa amamentação dançaram e cantaram a marchinha de Jararaca.
Pois foi o alagoano José Luís Rodrigues Calazans, o Jararaca, quem salvou o jovem talento brasileiro – Chico levou para casa o “leitinho” da recém-nascida Silvia, que chegou “com uma fome que nem me contem”. Nascido em 1896, no Pilar, Jararaca, que se tornaria parceiro de Tom Jobim em “Boto” (a canção original “agregada” por Tom, “Do Pilá”, tem uma gravação recente irretocável do maravilhoso Renato Braz), fez uma bela e longa carreira ao lado do paraibano Sererino Rangel de Carvalho, o Ratinho. No rádio e, depois, na televisão, os dois marcaram época com seu cancioneiro caipira que animou e divertiu multidões. Ratinho também era uma exímio saxofonista, autor de clássicos como “Saxofone por que choras?”.
Mas a singela “Mamãe, eu quero”, em parceria com Vicente Paiva, quase não vai para o acetato. Desta vez quem salvou Jararaca foi Henrique Foreis Domingues, o Almirante – “a maior patente do rádio”. Em 16 de dezembro de 1936, estava o nosso Jararaca macambúzio no estúdio da Odeon, quando por lá chegou o salvador da “Mamãe…” Músicos, coristas, técnicos e até o diretor da gravadora – Simon Bounttman – se recusavam a gravar “mais uma brincadeira irresponsável” do compositor. Curta, repetitiva, a marchinha era “muito fraca”, num tempo em que as músicas de carnaval eram o carro-chefe das gravadoras em cada início de ano. Argumentou Almirante e, com Jararaca, inventou o seguinte diálogo de abertura para a música:
Jararaca – Mamãe, eu quero…
Almirante – Qué o que, meu filho?
Jararaca – Mamãe, eu quero ir pras avenida.
Almirante – Qué o que, menino?
Jararaca – Mamãe, eu quero entrar nos cordão.
Almirante – Você vai entrar é na lenha.
Jararaca – Ih! Mamãe está semicunflauta!(???)

Gravou-se “Mamãe, eu quero”, e ela se tornou a marchinha mais cantada em nossos carnavais (quando havia). Foi, também, uma das músicas brasileiras mais regravadas no exterior, o que Chico e Toquinho puderem constatar, mesmo de porre, 35 anos depois.
Fonte: Tnh1.com.br
 
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