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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

MORREU BANGUELO

                           
                                                                                     “In memoriam ao folião Jose Correia”.

Com os olhos esbugalhados em bolas de fogo, Alcebides, o protético, ruminou noite adentro as contas de décadas a receber. Os hieróglifos, no caderninho encardido de folhas arrepiadas, comandavam a insônia das sextas, véspera de feira.  

Com o olho do dia aceso e brilhante, de um verão escaldante, Alcebides convocou as irmãs, filhos e agregados, e entregou as enfieiras setorizadas dos devedores.

Numa dessas manhãs, que o pé que vai ao chão primeiro é o esquerdo, a cobradora, dona Cleinha, irmã do protético, amanheceu ardilosa. Seu peixe maior, Dinho da Bola, já vinha protelando o pagamento de uma perereca provisória há três anos, do laboratório de Alcebides.

Saindo para cobrança, Cleinha pescou da memória imagens de carnavais passados, onde Dinho da Bola, embriagado, realizava manejos nojentos de vai e vem no selinho da gengiva, com sua perereca de dentes de ratos.

Dinho da Bola, talentoso meia-esquerda, nas festas de momo saia pelo salão do clube, girando um copo de cerveja com submarino perereca, lá no fundo míope do olho. A cada parada, oferecia um gole de folia aos endoidecidos pelo frevo, que sem perceberem, bebiam mijo da perereca.

Cutucando a memória do inveterado devedor, Cleinha foi fechando o cerco na intenção do bote. Dinho da Bola saiba que esta noite sonhei contigo rapaz, num baile de carnaval lá em muriçoca. Você embriagado, com um copo de cerveja na mão e uma perereca, que hora estava na boca e hora no fundo do cacimbão.

Em gargalhadas, Dinho da Bola fez movimentos com o corpo, como se estivesse a dribla e fazer gol e arrematou da memória a mais fantástica das suas palhaçadas. O mestre do fiado começou a contar o dia em que o delegado de polícia, fantasiado de lobo mal e sua esposa de vovozinha, compartilharam de sua loucura e beberam água do cacimbão. Dinho da Bola narrou o espanto e a espera dos foliões pela sua detenção na quarta feira de cinzas. Rua abaixo rua acima, era o que se falava, contou ele.

Logo no princípio “... do chega tão de pressa...”, o Delegado tomou conhecimento do buchicho que corria no salão, que sua mulher e ele beberam água da perereca de Dinho da Bola. De imediato, antes que Dinho evadisse, tomou a seguinte providência: Mandou o pequenino batalhão de três fechar as saídas da cidade. Pensava ele que Dinho residia na área urbana de Muriçoca.  

À tardinha, no bloco do Bacalhau na Vara, o Delegado fantasiou-se de Delegado e sua companheira de Presidente do Rotary Clube. Dinho da Bola não compareceu, ficou na esteira da Usina, chupando cana três X, tarefa difícil para um banguelo de incisivos.

O dia amanheceu com o Delegado na casa do Juiz. Amigo do Padre e dos Usineiros foi logo adiantando. Excelência, estou para cometer uma arbitrariedade. Preciso entra na Usina, vou prender Dinho da Bola.

O Juiz disse ao xerife: - Aí são duas ilicitudes. O Engenho é terra privada, e beber água da chapa de livre e espontânea vontade não é crime. Sentenciou numa martelada só: Dinho da Bola não cometeu crime! O delegado entregou a estrela e foi embora.
Os dois riram de chorar pelas gaitadas. Cleinha olhou para Dinho da Bola e armou a arapuca, inquirindo: -Como você consegue leva e trazer a perereca com precisão para o selinho da gengiva?

Encalorado pelas lembranças, Dinho joga  a fina língua,  na presteza de um tamanduá, com a perereca num equilíbrio extraordinário. Aproveitando-se da “inocência” de Dinho da Bola, Dona Cleinha lançou o bote. Arrematando a perereca como uma víbora, botou a pereca na bolsa e disse: - Agora você vai pegar com o Delegado, depois que pagar ao Alcibíades sua dívida de três anos, com juros e correções monetárias.

Dinho da Bola morreu Banguelo. 

 *Por Luciano Aguiar- Colunista do Blog Ferreira Delmiro


 
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