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domingo, 11 de dezembro de 2016

Faltando um pedaço.

Em meio ao farto noticiário sobre a República Nacional dos Escândalos, deparei-me com uma nota pungente: Sérgio Cabral, jornalista, compositor, escritor e pai do ex-governador do Rio de Janeiro sofre da Doença de Alzheimer.
Um dos grandes males do milênio surgiu na sua vetustez como um alento ao drama que, imagino, ele viveria hoje – piedoso esquecimento. Ao ser indagado sobre o neopresidiário, ele teria afirmado que o filho morrera “ainda menino”.
Eis que a memória, sempre traiçoeira e tema recorrente neste espaço domingueiro – coisa da idade, está claro –,  salva um homem daquilo que poderia ser a maior dor da sua longeva trajetória.
Inevitável, o meu espanto.
O “velho” Sérgio Cabral é parte da minha vida, em tempos que a memória não apagou. Conheço-o da época do Pasquim, quando ele foi preso pela ditadura militar por “desrespeito aos símbolos da Pátria”.
Mas a nossa convivência não parou por aí.
Preservo com muito carinho na minha estimada estante – que vale muito menos que um certo anel de madame – três  livros de sua autoria, que recomendo ardorosamente para quem ama a MPB e sua(s) história(s). São as biografias, detalhadas, trabalhos de fôlego, de Almirante, “a maior patente do rádio”; de Tom Jobim, o deus do Olimpo da Música Brasileira – que hoje não seria mais “Popular”; e de Nara Leão, a musa da Bossa Nova.
Só isto bastaria para guardá-lo em boas lembranças, apesar de ter perdido contato com o personagem nos últimos tempos (o que só agora me dei conta).
O apagamento das suas recordações, no entanto, me traz de volta ao jogo da memória. A esta altura, já aprendi que ela nos desafia no seu próprio tabuleiro de um xadrez – do qual que não podemos fugir -, é dona das pedras brancas e só nos revela o lance que lhe interessa.
Todas as histórias que contamos e recontamos sofre do mal – necessário – do esquecimento: sempre faltando um pedaço, e nunca haveremos de saber qual é. Os enredos são (re) compostos por nós a partir dos fragmentos que imagino tão verdadeiros quanto os desaparecidos no quarto da escuridão em que a memória resolveu escondê-los.
Ariano Suassuna, uma das mais luminosas e recentes lembranças da vida cultural brasileira – ainda que predominantemente como piadista –, disse que escrever era “prestar contas à própria infância”.
Haveria de estar prenhe de razão, o Mestre. Faltou lembrar, acho eu, que ele precisou da sua fecunda imaginação para que a conta fosse fechada e passasse “na prova dos noves” (que ninguém mais faz, ô Ricardo!).
E que fique ainda mais claro: não se trata de mentir, mas sim de dar uma sequência lógica às histórias pessoais, da infância, da juventude, até que a insana cega nos separe – de preferência, antes do alemão.
Uma belíssima metáfora de uma existência afetiva, no que ela tem de mais precioso, está em Cine Paradiso (Giuseppe Tornatore). Pungente homenagem ao cinema – mais até a Fellini, diz o meu olhar. Mas este não seria o grande filme que é, não fosse pela cena em que Totó, o protagonista, se depara com aquela montagem de pedaços de película, urdida por Alfredo (Philippe Noiret, impagável), os beijos, todos, fartos, comoventes, numa sequência aparentemente ilógica, mas que revela o único enredo possível do que na vida lhe valeu a pena.
(Será assim na morte, como tanto já especulou a literatura?)
Aos fortes, só resta o choro. Aos outros, não há de fazer a mínima diferença.
Quanto ao velho Sérgio Cabral, mesmo que ele não saiba, que bem lhe fez o seu mal!
Por Ricardo Mota/tnh1.com.br
 
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