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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Esquerda, centro e direita se unem contra Moro

O site Brasil247, uma espécie de porta-voz informal do petismo, dá grande destaque a declarações de arquivilãos contra Sérgio Moro e a Operação Lava Jato.

Da noite para o dia, o ministro Gilmar Mendes deixou de ser um supremo defensor das posições e interesses direitistas; o senador Aloysio Nunes, aquele ex-guerrilheiro da ALN que se deslocou para o extremo oposto do espectro político (tornando-se anticomunista furibundo!), obteve a absolvição de tal pecadilho, sem nem mesmo ter de rezar uns tantos pai-nossos e ave-marias; e o senador Renan Calheiros, atolado em denúncias de ilegalidades até o pescoço (tanto quanto estava em 2007, quando precisou abandonar sob vara a Presidência do Senado), deve agora ser visto como um paladino da luta contra o regime de exceção. As voltas que o mundo dá…

Vale tudo para deter a Lava Jato antes que encarcere Lula. Ou seja, mais uma vez o PT coloca a sobrevivência política do partido acima da revolução, da justiça social, dos trabalhadores, dos valores da esquerda e de tudo que se comprometeu a defender em 1980. Pactua nos bastidores com o PSDB e o PMDB para, juntos, cortarem as asas de Moro, no exato instante em que as delações premiadas de Marcelo Odebrecht e mais 50 executivos de sua empresa ameaçam decepar mãos sujas de figurões de todos os partidos, não deixando pedra sobre pedra em Brasília.

Todo aquele blablablá contra o Michel Temer, portanto, não era pra valer. Essa nova rodada de delações premiadas decerto vai causar-lhe imensos embaraços e talvez até o derrube; e há, ainda, a possibilidade de Eduardo Cunha também fechar um acordo para salvar o pescoço, o que equivaleria a outra bomba arrasa-quarteirão. Mas, se abortar tudo isso for o preço para evitar a prisão de Lula, o PT se mostra disposto a pagá-lo de bom grado.

Por quê? Porque faz das tripas coração para se manter como força hegemônica da esquerda, apesar dos erros crassos que tem cometido e das acachapantes derrotas que vem sofrendo ultimamente. E, como continua sem qualquer outra figura de proa com prestígio nacional, sua única esperança de não repetir nas eleições de 2018 o desempenho pífio das de 2016 é ter Lula como candidato a presidente da República, puxando votos para os pleiteantes aos governos estaduais, Senado, Câmara Federal e assembleias legislativas.

O desespero é tamanho que o coordenador do MST, Miguel Stedile, constrangeu Dom Paulo Evaristo Arns no ato comemorativo do seu 95º aniversário, ao pedir-lhe: “Reze, faça tudo o que o senhor puder para salvarmos o Lula desse impostor” (referência a Moro, a quem ele também qualificou de imperador de Curitiba). A fala foi tão descabida e inoportuna que só restou a Dom Paulo a opção de manter-se em silêncio.

A minha impressão é que a cruzada de direita, centro e esquerda contra a Lava Jato acabará vitoriosa.

Divirto-me ao ler artigos enfáticos do Reinaldo Azevedo desaconselhando a aceitação da delação premiada de Eduardo Cunha sob mil pretextos, menos o motivo real, de que causaria uma enorme devastação no coração do poder.

EBCJuiz está no alvo de diversas metralhadoras políticas, diz LungarettiOu ao tomar conhecimento de alguns excessos caricatos em que incorrem os petistas para preservarem seu último trunfo, como o de mobilizarem-se ruidosamente para resistirem ao que depois acaba se evidenciando como mero boato.
E fico imaginando a cara dos visitantes de Moro que vão lhe perguntar quando mandará a Polícia Federal atrás da bola da vez, ao dele receberem como resposta apenas o indicativo apontando a placa jocosa que pendurou na parede do gabinete: “Prisão do Lula só amanhã”.

Mas, o strip-tease dos poderosos já durou demais e suas pudendas são muito feias de se olhar. Se levada às últimas consequências, a luta contra a corrupção esfarelará de tal forma o poder político que este não servirá mais nem para continuar cumprindo seu tradicional papel de fachada do poder dominante (o econômico).

E – só os ingênuos não percebem – neste instante inexiste qualquer possibilidade de o povo tomar nas mãos seu destino; se a desqualificação generalizada dos políticos abrir caminho para uma solução alternativa, o beneficiário será algum demagogo carismático que decerto vai se apresentar como um outsider, mas ideologicamente rezará pela cartilha da direita mais selvagem!

Registro a sábia advertência do colega jornalista Mário Sérgio Conti, que é minha também:

“Depois do tacão militar, da Nova República, do pesadelo collorido, do apagão tucano, da deterioração petista e do golpe democrático – após o fracasso total virá o Salvador da Pátria…

…Bonaparte poderá vir até mesmo antes do próximo pleito, caso um desses cruzados contra a corrupção se meta na política. Como tantas almas crédulas seguiram Jânio, os milicos e Collor, dá para imaginar o tamanho da procissão atrás de um histrião moralista”.

Mas, se Moro for mesmo enquadrado, para o bem de todos que se lambuzaram com o poder e felicidade geral dos políticos profissionais, merecerá ser respeitosamente lembrado como um Gulliver que os liliputianos terão imobilizado, mas não vencido.

Admirador entusiástico da Operação Mãos Limpas italiana, ele foi totalmente coerente com suas devoções. Quantos dos feios, sujos e malvados da política brasileira podem dizer o mesmo?


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