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domingo, 16 de outubro de 2016

A arte de deslembrar pessoas

A vida apronta algumas coisas engraçadas, tolas, mas que até funcionam, mesmo parecendo bruxaria barata. (Ressaltando que há, sim, bruxaria cara, tão imprestável quanto.)
Entre essas subnaturalidades graciosas está o deslembramento de pessoas com as quais eu já tive alguma relação, profissional, pessoal, algo próprio do comum da vida, mas que não imprimiram em tinta de boa qualidade nenhuma bem-querência.
Não me refiro a esquecer nomes, situações, coisas repetíveis e inevitáveis, mas a desmanchar na memória gente cuja ausência nos faz tanto bem que nem notamos o próprio esquecimento. Lembrando que o mesmo deve acontecer com algumas pessoas em relação a nós. Ou será que fomos sempre os virtuosos da paróquia? Para todos, esquecer também é viver. A única exigência inegociável, por óbvio, é o afastamento físico entre as partes esquecíveis.
Esta arte, assim definamos, está alguns degraus acima do desprezo e requer principalmente descuido, desinteresse pra valer. Nada que exija esforço psicológico ou contra-afetivo, porque se não for desse jeito, pode resultar exatamente no contrário.
Em A aldeia de Stepántchikovo, o velho Fiódor conta a história de um rapaz atormentado pela obrigação de nunca sonhar com “o boi branco”. E quanto mais ele se esforçava para esquecer o animal, nos minutos que antecediam o sono, mais o bicho lhe surgia alvo e assombrador em seus sonhos.
Esquecer não há de ser, aqui, querer não lembrar – é simplesmente deslembrar. Um desacontecimento tão importante quanto despercebido. Talvez por isso mereça mesmo o tratamento e a distinção de uma arte, embora seja uma arte que não se presta a despertar emoções – nem na plateia, nem mesmo no artista.
*Por Ricardo Mota
É até possível que você guarde algum talento nesse cenário de insinuante invisibilidade, desde que não seja do tipo que amarga rancores e se abastece neles, como se sua força vital dependesse do fel ou da bile a correr no sangue, quando esta erra fluidos e ductos.
Dou-me conta, hoje,  de que só me toco da existência de algumas pessoas se delas alguém me fala, cita os nomes ou lhes faz alguma referência. Fora isso, elas se tornaram – ou vão se tornando – imagens disformes, um ponto no meio do oceano “observado” em um voo transatlântico.
Agora, por exemplo, lembrei-me de alguns desses personagens, de quem já não guardo sentimentos quaisquer, o que me dá certa satisfação. Ignorá-las tão somente, mesmo que sendo uma parte inegável do meu passado, me parece neste instante algo tão prazeroso quanto uma colherada de um bom doce de leite carregado demais no açúcar: não convém repetir.
Bem da idade?
Pode ser. Mas é provável que assim não fosse se lá para trás, na minha já longa jornada, não houvesse um Rosa a ecoar e a alimentar a – ainda – boa lembrança, a me dizer que “quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente”.
Talvez esses fantasmas não caibam mesmo é no espaço reservado à saudade, uma dor da qual não creio que queiramos, de fato, nos livrar: se não nos mata, pode até nos ajudar a viver. Que desse recanto da nossa alma tomem conta os que partiram ou sumiram no oco do mundo, mas deixaram conosco pelo menos um pouco do melhor que tinham.
Falo de amor, coisa que não definha, não se desmancha, não se desmilíngua, não se esfarrapa, não mancha e não perde o cheiro.
“O resto é silêncio.”
*Ricardo Mota é Colunista do Portal TNH1
 
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