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segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Cristovam Buarque: “Impeachment ficou incompleto”

O senador Cristovam Buarque (PPS-DF), 72 anos, acabou de lançar mais um livro em que exerce o que mais sabe fazer: lançar ideias e fazer análises sobre o poder. Uma nova esquerda e o Brasil que queremos chega ao leitor ainda no calor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, em meio a uma crise política longe de ter solução na gestão Michel Temer, ainda de profundidade não mensurada. O livro reúne discursos, artigos e análises feitas desde 2005 sobre a atuação dos grupos, parlamentares ou não, situados no espectro da esquerda.
“O impeachment só não basta. É preciso levar adiante a ideia do impeachment a todo o modelo social, político e econômico que rege o país”, escreve o parlamentar no livro.

Ele votou pela cassação da petista, mas contra a suspensão dos seus direitos políticos. Cristovam classifica como “muito negativo” o legado dos 13 anos do seu ex-partido, o PT de Lula, na Presidência da República. O voto a favor do impeachment gerou diversas reações contra o ex-petista, que chegou a ser chamado de “golpista” por manifestantes durante uma audiência que presidia no Senado sobre liberdade de expressão em sala de aula.
O antigo reitor da UnB (1985-1989), foi governador do Distrito Federal (1995-1998) pelo PT, primeiro ministro da Educação de Lula, passou pelo PDT e hoje é pré-candidato ao Planalto pelo PPS. Defende que, antes de repetir uma nova campanha eleitoral, o Congresso e as forças políticas da sociedade precisam fazer uma revolução nos métodos políticos e no financiamento das eleições para tentar reduzir a corrupção. Cristovam repete seu mantra “educação” como base para as mudanças estruturais da sociedade.
Em entrevista ao Congresso em Foco, Cristovam volta a transparecer a inquietude registrada nas 151 páginas de sua obra mais recente. “Não fizemos o dever de casa na educação brasileira lá atrás, há 50 anos. Todos os indicadores mostram que onde a população é bastante educada a corrupção é mais difícil. Não porque o instruído seja honesto e o analfabeto corrupto. Ao contrário. Todas estas autoridades citadas são doutores. Um povo educado tem alternativas, não precisa vender seu voto”, observa o senador.
Em novo livro, Cristovam critica o anacronismo que diz ver na esquerda brasileira
Confira os principais trechos da entrevista:
CRISE BRASILEIRA
“É do tamanho do buraco da falta de lucidez na hora de analisar os problemas e da falta de responsabilidade de saber como, para onde e até onde ir. O (presidente do Congresso) Renan Calheiros (PMDB-AL) chamou o plenário de hospício, mas errou. Isso aqui é um estádio de futebol durante um clássico onde a torcida não tem lucidez nem responsabilidade e só age por paixão. Nós nos transformamos em torcidas a favor ou contra. Se as propostas chegam do governo, já é bom para alguns e ruim para outros, em um posicionamento sem lucidez nem responsabilidade.”
RAZÃO E PAIXÃO NA POLÍTICA
“Tem muita paixão e pouca razão na política E uma paixão superficial. A paixão comunista, por exemplo, era por uma transformação e uma utopia. Nunca fui de partidos comunistas, mas quem estava em torno dessas ideias tinha uma paixão transformadora, com objetivo. Hoje a paixão é circunstancial e não por transformação e princípios. É como no futebol, pela cor da camisa do político.”
A CRISE, O GOVERNO E O CONGRESSO
“Separo a economia da política. O (Henrique) Meirelles, ministro da Fazenda, traz estabilidade e credibilidade. O agronegócio, emprego e divisas. A gestão econômica já deveria estar menos ideologizada e politizada porque sua aplicação tem regras tão amarradas devido à globalização e à internet que não podemos ignorar, nem meter nossa vontade na sua administração. Temos que respeitar a economia como um engenheiro respeitou a lei da gravidade para inventar o avião. A política é o nosso espaço de ideologização para dizer aonde desejo ir e como ir. Nosso papel é fazer a economia funcionar bem. E como sonhadores e utópicos, saber tirar dessa economia que funciona bem para por a riqueza nãos mãos do público. Às vezes pelo Estado ou por fora dele.”
O PAPEL DE TEMER
“É cedo para dizer se o (presidente Michel) Temer vai perceber que o seu papel é de travessia. Li uma entrevista do (ex-presidente) Fernando Henrique Cardozo onde ele dizia que o PMDB e o Temer não representam pontes, mas uma pinguela. Gostei da metáfora, mas ele se esqueceu de dizer que se mudamos com frequência a posição da pinguela, o cavalo quebra perna. Não estou vendo um rumo seguro que o Temer esteja oferecendo. Esperamos do presidente a retomada do diálogo nacional com lucidez e responsabilidade, estabilidade monetária e respeito às contas, fazer a máquina estatal funcionar, dar credibilidade à gestão para a economia voltar a crescer, gerar emprego e respeitar as conquistas sociais.”

GOLPE?
“Nós não temos outro presidente. Como vice, foi eleito junto com a Dilma. Não é como o João Goulart (presidente de 1961 a 1964) que foi votado diretamente. Mesmo assim, foi destituído. Quem fala que o impeachment da Dilma foi golpe não lembra que Goulart foi eleito diretamente, depois foi tirado, teve que sair em um avião que quase derrubam, ficou no exílio até morrer e até se desconfia que foi assassinado. Dezenas ao seu redor foram presos, milhares exilados, houve tortura, 21 anos de ditadura e chamamos de golpe. Agora, chamam igualmente de golpe um processo que levou meses, a presidente teve todo o direito de se defender, morava no Palácio (da Alvorada), saiu de lá dias depois da cassação e ainda tem um grupo de assessores para trabalhar com ela, o que acho certo, dois carros, dois motoristas e ainda chamam de golpe. Acho isso um desrespeito com João Goulart.”
RAZÕES DA DEGRADAÇÃO POLÍTICA
“Não fizemos o dever de casa na educação brasileira lá atrás, há 50 anos. Todos os indicadores mostram que onde a população é bastante educada a corrupção é mais difícil. Não porque o instruído seja honesto e o analfabeto corrupto. Ao contrário. Todas estas autoridades citadas são doutores. Um povo educado tem alternativas, não precisa vender seu voto. O que provocou tudo isto foi a impunidade que deixa no mandato quem cometeu crime e o sistema político que favorece aos que tem dinheiro para gastar nas campanhas.”
POLÍTICA DESMORALIZADA
“Sentimos que esta profissão não orgulha a população. Alguém disse que a atividade deveria ser ou dos anjos ou dos diabos. Acho que deveria ser de anjos porque a vida do político não tem hora, ele suporta coisas que nos levam a pensar que poderíamos fazer outra coisa, não tem liberdade. Isso para quem leva a política a sério.”
POLÍTICA PROFISSIONAL
“Há muito tempo defendo desprofissionalizar esta atividade, inclusive com a proibição de muitas reeleições para o mesmo cargo. Não deveria ser uma profissão e sim uma atividade, como o serviço militar obrigatório. Um dia desses comentei com alguns colegas que talvez fosse o caso de muitos de nós sairmos. Mas ninguém topa. Precisamos que os políticos digam “essa é minha última eleição”. Esta máxima de que ninguém abre mão de poder não deveria ser aplicada porque, a meu ver, poder não deveria ser o propósito final de ninguém. Pode-se ter poder como jornalista ou como dirigente de um hospital para salvar pessoas. O poder não é coisa só da política. O jogador Neymar tem o poder imenso de fazer a alegria ou a tristeza de milhões de pessoas.”
LÍDER PARA SAIR DA CRISE
“Deve ter uma liderança que, em geral, é encarnada em uma pessoa. Mas o líder não é apenas um produto só dele. Também fruto de produto que o povo fabrica naquela hora. Se o (Nelson) Mandela tivesse morrido 10 anos antes, não teria sido o estadista que foi. Talvez fosse um herói, um intelectual, mas não um líder. O povo faz o líder e pode ser que existam muitos por aí que ainda nem sabem. Mas hoje precisamos menos de líderes. Há um livro sobre isto chamado “Revoluções sem líder”.  Foi assim com a Primavera Árabe. Esse celular que também é gravador permite uma liderança fluida. Antigamente, para convencer alguém a ir para uma manifestação era preciso uma tremenda liderança e acesso a partido. Hoje, com o celular, marca-se hora, local e motivo e uma pessoa consegue pelo menos um grupo capaz de parar uma estrada em uma manifestação, por exemplo. Hoje falta mais uma ideia clara que unifique do que o líder. E essa ideia não nasce, chega ao líder que a processa e verbaliza.”
LEGADO DE LULA E DILMA
“O grande legado do Lula é cultural. Em um país que até há pouco tempo havia escravidão, um operário sem diploma chegar à presidência por oito anos, saiu-se até bem. Mas ele não fez as reformas que que a esquerda defendia, não aproveitou o momento que tinha, não foi capaz de ser um estadista, mas não se saiu mal. Aproveitou a economia internacional e a empatia com a população e fez um governo longe de ser desastroso. Mas não foi transformador. O problema é que o legado dele vai ser medido junto com o da Dilma e aí fica mal avaliado. Lula cometeu o erro de querer ficar quatro mandatos no poder, os dois dele e os dois da Dilma, e o projeto se esgotou. Para ficar quatro anos teve que fazer tais concessões, inclusive usando métodos de corrupção, se viciou na maneira tradicional de fazer política e por isso deixou um legado muito negativo para o Brasil e para a esquerda. Se medirmos o legado dele apenas pelos seus mandatos, teria sido positivo. Mas os 13 anos deixaram um legado muito negativo: de que todos são corruptos — porque antigamente o PT não era e os outros que eram — de não mudar as estruturas. Hoje já tem filho de pobre cursando universidade por causa das cotas, que começou com o Fernando Henrique no Instituto Rio Branco. Mas o Lula e os governos petistas não tocaram na estrutura para fazer com que os filhos de todos os pobres disputassem com os filhos de todos os ricos para saber quem é o melhor para entrar na universidade. Lula não deixou o legado de transformação, nem na economia nem no social.”
IMPEACHMENT
“O impeachment só não basta. Ficou incompleto. Precisamos da reforma político-eleitoral para acabar a corrupção, não se tocou na reforma educacional, que eu chamo de federalização, nem a da administração pública para respeitar a aritmética financeira e não gastarmos mais do que se arrecada. O próprio governo Temer está dando aumentos que vão agravar o desequilíbrio das contas públicas. Não fizemos as reformas da Previdência e continuamos beneficiando os velhos de hoje e os daqui a cinco, 10 anos, mas estamos prejudicando os que se aposentarão daqui a 20 ou 30 anos. Não fizemos a reforma trabalhista, continuamos com a lei de um tempo em que ainda não havia máquina de escrever elétrica. Se não fizermos estas reformas, o impeachment ficará incompleto.”
LAVA JATO
“Tem papel pedagógico muito grande e deixará o eleitor será mais cuidadoso. O juiz (Sergio) Moro prende alguns corruptos, mas não elege honestos. O voto dele é igual ao seu e ao meu. Mais do que o juiz que põe criminoso na cadeia, temos o professor Moro que está trazendo a pedagogia das virtudes, de mostrar a criminalidade dos nossos dirigentes. Talvez o Brasil fosse muito melhor se os políticos dos últimos 30 anos tivessem morrido antes dos 30 anos de idade cada um deles. Nós somos uma geração que até fizemos boas coisas, a redemocratização, a estabilidade monetária, alguns programas sociais de caráter assistencial, mas não mudamos a maneira de fazer política. Somos uma geração viciada.”
ESTELIONATO ELEITORAL
“Houve sim. Dilma baixou o preço da tarifa de energia para ganhar voto e aumentou logo depois. Com isto, destruiu o sistema elétrico. Congelou o preço da gasolina produzida por uma estatal e depois teve que aumentar. O tabelamento do preço dos combustíveis prejudicou mais a Petrobrás do que a própria corrupção em termos financeiros, além de provocar fuga de investidores. A propaganda dela era claramente mentirosa quando se referia aos adversários e a mentida é uma forma de estelionato eleitoral. A população percebeu e foi pras ruas logo após a posse dela.”
REFORMA POLÍTICA
“O fundamental é mudar a maneira como se elege as pessoas, baratear as campanhas restringindo a propaganda ao que o candidato tem a dizer. Não tem que ter marketing eleitoral porque candidato não é sabonete para ser vendido pelo marqueteiro. Também sugiro o sistema distrital misto, com uma parte dos candidatos eleita por pequenas populações e outra pelo estado inteiro. A eleição distrital é menos ideologizada. O financiamento de campanha teria que ser feito apenas por simpatizantes e com limite de doações. Acabar a coligação partidária. Cada partido tem que ter candidato a prefeito, governador, senador e presidente. Com isso, desapareceriam as legendas de aluguel. Além disso, a Justiça tem que funcionar bem para impedir a eleição dos corruptos que escaparem das regras.”
JUSTIÇA SUSPEITA
“Hoje pesa suspeita sobre tudo, embora em muitos casos a gente nem perceba. Quando um médico não cumpre o seu plantão e continua recebendo seu salário, é uma forma de corrupção. Hoje há suspeitas sobre os políticos, mas todo o tecido social está contaminado, viciado. As suspeitas sobre a Justiça são fortíssimas de venda de sentença, de privilegiar amigos e de não dar a sentença, o que também é uma maneira de corrupção. Nós perdemos a perspectiva do global, do nacional, do patriótico e ficamos no corporativismo e no individualismo.”
PRESIDENCIALISMO OU PARLAMENTARISMO
“Fiz campanha para o presidencialismo. Mas hoje penso diferente. Os dois impeachments, o do Collor e o da Dilma, em pouco mais de 25 anos mostra que precisamos
 mudar isto. Tenho projeto de lei prevendo o recall que prevê o voto de desconfiança do eleitor para substituir o presidente. Mas também é traumático. Precisamos separar a figura do chefe de Estado do chefe de governo. Defendo algum tipo de parlamentarismo e simpatizo com o modelo francês, em que o presidente tem algum poder, inclusive de dissolver o Congresso e submeter a escolha do primeiro ministro ao Congresso.”

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA
“Ainda é cedo para isto. Defendo que o PPS faça debates e que os pré-candidatos apresentem suas sugestões e faça-se uma prévia para identificar a melhor. Não descarto que seja eu, mas não vou me concentrar nisso nem amaciar as minhas propostas para que o partido me escolha. Tomei três decisões que um candidato à Presidência não faria: votei pelo impeachment e desagradei uma grande parte das minhas bases, a chamada esquerda arcaica. Depois, contrariando um desejo da maioria do PPS, votei para não cassar os direitos políticos da Dilma porque queria salvar o Brasil e não apenas punir a presidente. E escrevi um artigo elogioso sobre os 90 anos de Fidel Castro. Terminei perdendo eleitores nos três casos.”
LUTA DE CLASSES TRIANGULAR
“Nos acostumamos com a ideia de que o trabalhador é explorado pelo capitalista. Isso ainda é valido. Mas não temos que discutir o capitalismo que vai ficar aí por muito tempo. No Brasil nós conseguimos pagar bem a certas categorias de trabalhadores que exploram outros mais pobres. A classe média não conseguiria comprar os apartamentos aonde vive se os peões que o construíram ganhassem o mesmo nível de salário. Os assalariados, muitos privilegiados da máquina do estado, se apropriam do suor do trabalhador. Se a esquerda não entender isto e ficar defendendo assalariados de 40 salários mínimos por mês, não vai perceber que isto é uma forma de exploração. Por isso sempre fui repudiado pelos marxistas mais ortodoxos.”
PROGRAMAS SOCIAIS
“A bolsa escola seria suficiente em 20 anos. O programa pagava uma renda para a família que, em troca, mantinha a criança na escola. O problema foi quando (o ex-presidente) Lula mudou o nome para Bolsa Família e cometeu graves erros: antes a mãe recebia o benefício e pensava que tinha este direito porque o filho estava na escola. Com a alteração, passou a entender que ganha a bolsa porque é pobre e a escola não é fundamental. No primeiro caso, ela entendia que, resolvida a escolaridade do filho, não precisaria mais do benefício. No segundo, prefere não deixar a pobreza para não perder o benefício E ao transferir a gestão do benefício da Educação para o de Assistência Social, perdeu-se o compromisso com a frequência escolar. Além de misturar o programa original com outros genéricos. O programa é generoso, mas não transformador. Tem programas sociais que ficaram irresponsáveis porque os recursos não conseguem atender e tem outros que precisam de uma análise.”


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